É na esquina, no comercial da novela das nove, na cama desarrumada, no rabo-de-cavalo, no suícidio do protagonista: revoluções se fazem. O dia-a-dia me fascina. É aqui, entre a caminhada na praça, projeto desfeito, o tesão numa cama, o trajeto pra a fábrica: loucos se fazem. Instantâneo
É aqui, entre compras de supermercado, banho, pão com leito, sapato velho, calça larga: amores se fazem. É na sala de espera de um psiquiatra, no velório da vizinha, na compra parcelada, na dívida de jogo, num diagnóstico errado: rocks se fazem. É na paisagem desconfigurada, no trem que não chega, no relógio da parede, na agressão disfarçada, no olhar recatado da freira: vícios se fazem. É aqui, no dia-a-dia: poemas se fazem.
RAQUEL LEMOS



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