RAQUEL LEMOS
quarta-feira, 23 de julho de 2008
Pontuação
Trabalho, supermercado, imobiliária e retrato. Tem pose certa. Decote pequeno. Calcinha de algodão. Pouco joelho no colchão. Horário controlado. Trânsito. Teatro. Sem filho. Nem contraceptivos. Cabelo escovado. Tailleur comportado. Música erudita. Literatura russa. Franceses pra suspirar. Frase curta. Pouca pontuação. Muito obrigado, volte sempre, seja bem vindo. Sobram regras. Falta instinto.
terça-feira, 22 de julho de 2008
O que mais o surpreende na humanidade?
"O que mais me surpreende são os homens... Porque perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem dinheiro para recuperar a saúde... E por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem do presente de tal forma que acabam por não viver nem o presente e nem o futuro. Vivem como se nunca fossem morrer... E morrem como se nunca tivessem vivido."
DALAI LAMA
segunda-feira, 21 de julho de 2008
Obituário
Aquele amor bem que podia ter morrido de morte natural - feito aqueles velhinhos na cadeira de balanço, livro no colo, cabeça baixa. Deveria ter morrido pelo tempo - sem queixas, anestésicos, remédios e feridas. Mas não teve acordo! Foi preciso sedativo, soro, balão de oxigênio. Muito pronto-socorro, emergência e anamnese. Teve recuperação, adeus à UTI e nova internação. O amor morreu de exaustão. Sem tragédia. Nem cadeira de balanço. Não teve velório. Nem missa. Nem nada. Morreu assim: de madrugada, com o telefone desligado.
RAQUEL LEMOS
domingo, 20 de julho de 2008
Fotografia
Fotografar é uma delícia. Escolher o que se quer registrar, o melhor ângulo, o enquadramento, a luz. Vida congelada, slide da realidade que aquece a alma e nos enche de recordações e lembranças. A dica para hoje é revisitar os antigos álbuns de fotografia, relembrar viagens, carnavais, reuniões, formaturas, casamentos. Amigos. Se ver mais novo.
ALEX XAVIER
sábado, 5 de julho de 2008
Paixão
Kleiton e Kledir
Composição: Kleiton & Kledir
Kleiton e Kledir
Composição: Kleiton & Kledir
Amo tua voz e tua cor
E teu jeito de fazer amor
Revirando os olhos e o tapete
Suspirando em falsete
Coisas que eu nem sei contar...
Ser feliz é tudo que se quer
Ah! Esse maldito fecheclair
De repente
A gente rasga a roupa
E uma febre muito louca
Faz o corpo arrepiar...
Depois do terceiro
Ou quarto copo
Tudo que vier eu topo
Tudo que vier, vem bem
Quando bebo perco o juízo
Não me responsabilizo
Nem por mim
Nem por ninguém...
Não quero ficar na tua vida
Como uma paixão mal resolvida
Dessas que a gente tem ciúme
E se encharca de perfume
Faz que tenta se matar...
Vou ficar até o fim do dia
Decorando tua geografia
E essa aventura
Em carne e osso
Deixa marcas no pescoço
Faz a gente levitar...
Tens um não sei que
De paraíso
E o corpo mais preciso
Que o mais lindo dos mortais
Tens uma beleza infinita
E a boca mais bonita
Que a minha já tocou...
Questão de humor
Se a vida perde o brilho
alguma luz eu acendo
onde tem falha eu emendo
coloco o que posso no trilho
separo o que não presta
o que não serve para nada
e da penumbra que me resta
faço piada.
alguma luz eu acendo
onde tem falha eu emendo
coloco o que posso no trilho
separo o que não presta
o que não serve para nada
e da penumbra que me resta
faço piada.
ANNA DUARTE
terça-feira, 1 de julho de 2008
Menstruada
Sim, nossa alma menstrua. A alma fica fértil - nalgum momento, a gente é capaz de procriar. E descobre que mamãe estava errada: virar mulher não é ter cólicas nem usar absorventes. Sem perceber, a gente dorme criança e encontra a calcinha da alma encharcada.
A gente vai decidindo tudo: o financiamento do carro, o armário de seis portas, aquela viagem há tanto tempo desejada...Sem perceber, a gente vai aprendendo a optar, e descobrir, aridamente, que tudo é um grande jogo de escolhas. Permitir intrusos, aceitar ofensas, abaixar a voz, engolir a mágoa, aquele filho que não fizemos, o casamento que não teremos, o porre perfeitamente escolhido, o banho quente no dia ruim. A alma menstrua. Nalgum momento, a gente se dá conta de que somos responsáveis pelo que nos causam. É dolorido, sim. A gente acorda mais molhada, mais doida, mais distante. Mais serena. Mais presente. No presente. De repente, acordei assim.
Acendi uma vela de sete dias (nem sei se por supertição ou vontade mesmo de que as escolhas sejam iluminadas), coloquei o lixo para fora, tirei aquele cara do caminho, me perdoei pela boa esposa que não consegui ser, senti saudade de um beijo antigo e leve, vesti meu cachecol, escolhi esmalte novo, comprei pipoca com bacon, porque já não é mais possível culpar este ou aquele.
Dei-me conta das limitações que são tantas. Dei-me conta das escolhas erradas, repetidas vezes. Dei-me conta do cansaço que me causo, do sossego que não me permito. Dei-me conta de que, sem perceber, a lama menstrua.
E a gente acaba com a cólica de si mesma. Do que permitimos aos outros, do que não nos permitimos. Enquanto a vela queima, vou queimando decisões erradas. Mas no fundo, ainda alegre, porque cedo ou tarde, seria preciso que essa alma sangrasse...
A gente vai decidindo tudo: o financiamento do carro, o armário de seis portas, aquela viagem há tanto tempo desejada...Sem perceber, a gente vai aprendendo a optar, e descobrir, aridamente, que tudo é um grande jogo de escolhas. Permitir intrusos, aceitar ofensas, abaixar a voz, engolir a mágoa, aquele filho que não fizemos, o casamento que não teremos, o porre perfeitamente escolhido, o banho quente no dia ruim. A alma menstrua. Nalgum momento, a gente se dá conta de que somos responsáveis pelo que nos causam. É dolorido, sim. A gente acorda mais molhada, mais doida, mais distante. Mais serena. Mais presente. No presente. De repente, acordei assim.
Acendi uma vela de sete dias (nem sei se por supertição ou vontade mesmo de que as escolhas sejam iluminadas), coloquei o lixo para fora, tirei aquele cara do caminho, me perdoei pela boa esposa que não consegui ser, senti saudade de um beijo antigo e leve, vesti meu cachecol, escolhi esmalte novo, comprei pipoca com bacon, porque já não é mais possível culpar este ou aquele.
Dei-me conta das limitações que são tantas. Dei-me conta das escolhas erradas, repetidas vezes. Dei-me conta do cansaço que me causo, do sossego que não me permito. Dei-me conta de que, sem perceber, a lama menstrua.
E a gente acaba com a cólica de si mesma. Do que permitimos aos outros, do que não nos permitimos. Enquanto a vela queima, vou queimando decisões erradas. Mas no fundo, ainda alegre, porque cedo ou tarde, seria preciso que essa alma sangrasse...
RAQUEL LEMOS
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