Raquel Lemos
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
Estrago Pequeno
Dói o corpo, dói a mente, o estômago, o fígado, o rim. Dói o carro que passa na rua. O almoço que a gente tem que engolir. Dói a luz do abajur. Dói a geladeira com danone. Dói em cima. Dói em baixo. Dói o braço. Dói fazer poema. Ensaiar uma rima pequena. Dói a fila do supermercado. Os risos que não me pertencem. O cheiro de misto-quente. Dói aqui, ali, todo lado. Dói pequeno, sem folga. E de vez em quando, a gente até se pega olhando para o espelho - Ainda trabalho? Ando? Falo? Sim, ainda trabalho, ando e falo. Mas não tem quatro cachorros, nem disco rodando, nem cheiro de banho. Tem estômago, rim, fígado doendo...e eu ali, me perguntando: como é que tanto estrago cabe dentro de um corpo tão pequeno?
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